Baronesa Warsi, incapaz ou pouco disposta a defender a sociedade civil britânica
Cotada para o posto de czar da islamofobia no governo trabalhista, ela afirma que apenas “seis aberrações” apoiam o Hamas no Reino Unido
Hannah Baldock é jornalista especializada em radicalização, terrorismo e islamismo. Ela colabora com frequência para o Focus on Western Islamism.

Como prenúncio de como pretende conduzir suas responsabilidades como czar do governo trabalhista para a hostilidade antimuçulmana — cargo para o qual é apontada como favorita —, a parlamentar britânica baronesa Sayeeda Warsi, ex-ministra de um governo conservador, desestimulou a pesquisa e a análise das raízes ideológicas do terror islamista.
Warsi, integrante da Câmara dos Lordes sem filiação partidária, rompeu com os conservadores na Casa em 2024, depois de se recusar a apagar uma publicação no X em que parabenizava uma manifestante anti-Israel por sua absolvição em um caso de crime de desordem pública com agravante racial — a manifestante havia erguido um cartaz que retratava o então primeiro-ministro Rishi Sunak e a então ministra do Interior Suella Braverman como cocos. Warsi publicou no X uma foto sua bebendo de um coco e desejou à manifestante “muitos parabéns”.
A recusa de Warsi em falar sobre ideologia islamista ocorreu durante as perguntas feitas após sua palestra inaugural no Darwin Lecture Theatre, da UCL (University College London), em 3 de setembro de 2026. Ela falou em nome da Equi, entidade liderada por muçulmanos que surgiu do nada em 2024 autointitulando-se um “think tank de ponta”, e que, desde então, produziu uma série de relatórios tendenciosos sobre os distúrbios de Southport, finanças da sharia e devolução. Os relatórios trazem ambiciosos “planos de ação” para justificar a intervenção do governo, mas carecem de dados sólidos e relevantes.
Ao apresentar a palestra inaugural da Equi, o diretor-executivo da entidade, Javed Khan, afirmou: “Fomos fundados sobre uma crença muito simples: evidências melhores levam a conversas melhores”. Mas as evidências em sua palestra eram anedóticas. Depois de preparar a plateia para esperar “abertura radical e pensamento disruptivo” sobre os desafios da coesão social na Grã-Bretanha, Warsi fez, em vez disso, politicagem barata para marcar pontos — lançou dúvidas sobre o patriotismo do Reform UK, porque a mulher de seu vice-líder havia se mudado para Dubai para escapar das investidas tributárias dos trabalhistas, e do Restore Britain, porque seu cofundador afirmara que a Grã-Bretanha é “um povo definido pela ancestralidade britânica autóctone e pela fé cristã”, quando, observou Warsi, o falecido pai do rei Charles III, Philip, era grego e a mãe de Winston Churchill era americana.
Desconversa
Após a palestra, desafiei a baronesa a tratar da profunda hostilidade de seguidores dos movimentos fundamentalistas deobandi, do sul da Ásia, e salafista, árabe — que controlam a maioria das mesquitas britânicas — aos modelos políticos e econômicos ocidentais, à filosofia iluminista da autonomia individual, ao pluralismo e aos direitos humanos universais, e à igualdade de gênero. Infelizmente, ela pareceu incapaz — ou pouco disposta — a travar um debate racional sobre o tema.
Por que a reticência? Afinal, ela contou de brincadeira à BBC que tirou um “ano sabático jihadista” de nove meses no Paquistão depois do 11 de Setembro e, mais tarde, trabalhou com o ex-chanceler conservador William Hague no combate ao terrorismo. Ela poderia oferecer uma percepção real da visão de mundo de terroristas islamistas — não menos porque muitos passaram pelos círculos do Tablighi Jamaat nos quais, segundo ela relatou, cresceu quando criança em Dewsbury, inclusive dois dos quatro autores dos atentados suicidas de 7 de julho de 2005 contra ônibus e trens do metrô de Londres. Esses “malucos”, como ela os chama, mataram ou infligiram lesões físicas e mentais que mudaram a vida de centenas de pessoas, inclusive crianças, como ouvimos no mês passado do grupo de sobreviventes Resilience in Unity.
Um ex-presidente da Islamic Society do University College London, onde nos sentamos para sua palestra — o “Underwear Bomber” (terrorista da cueca) Umar Farouk Abdulmutallab — tentou explodir um avião com destino a Detroit no Natal de 2008. Por que Warsi diz que eu não deveria “perder meu tempo” investigando os motivos desses “malucos”?
Warsi disse durante o debate: “A comunidade muçulmana tem malucos? Com toda a certeza. A comunidade cristã tem esses malucos? Com toda a certeza. A comunidade judaica tem esses malucos? Com toda a certeza. E eles estão sempre à mostra, para que todos nós vejamos”, acrescentou ela.
Foi um comentário estranho. Esses “malucos” estão mesmo “à mostra, para que todos nós vejamos”? Não, é justamente o contrário. O departamento de engenharia da UCL descreveu Abdulmutallab como alguém “de boas maneiras” e que “nunca deu a seus tutores qualquer motivo de preocupação”.
Ativistas da Irmandade Muçulmana árabe e do Jamaat-e-Islami do sul da Ásia — as fontes ideológicas do dogma islamista divisivo e supremacista defendido por muitos grupos terroristas, inclusive a doutrina que sanciona a jihad ofensiva — há décadas se fazem passar por entidades de caridade, educadores, imãs e lobistas políticos e recorrem rotineiramente ao lawfare para dissuadir jornalistas, o que dificulta monitorá-los e subsidiar a formulação de políticas públicas a seu respeito. Isso explica por que a Áustria criou um “Observatório do Islã Político” para monitorá-los, função cumprida na Alemanha por seu Escritório Federal para a Proteção da Constituição.
E, quanto aos pregadores do ódio religioso: não fossem os corajosos repórteres infiltrados por trás dos documentários “Undercover Mosque” (Mesquita sob disfarce), do Dispatches, do Channel 4, exibidos em 2007 e 2008, o público britânico permaneceria alheio à pregação ativa, nesses círculos, do ódio contra qualquer pessoa que não seja muçulmana sunita fundamentalista — especialmente não muçulmanos, apóstatas, blasfemos, adúlteros, homossexuais e mulheres sem véu. A conta Habibi no X desempenha a mesma função desde 7 de outubro de 2023.
Para reforçar minha pergunta, citei uma pesquisa de abril de 2024 da JL Partners, segundo a qual os muçulmanos britânicos têm mais probabilidade de ter uma visão positiva do que negativa do Hamas, organização terrorista proscrita no Reino Unido; que 52% querem tornar ilegal exibir uma imagem do profeta Muhammad; e que apenas um em cada quatro acredita que o Hamas cometeu estupros e assassinatos em 7 de outubro de 2023. Em vez de discutir esses resultados, Warsi se esquivou e os negou.
Na deixa, Warsi respondeu: “Sinceramente, não sei quem são os seis aberrados com quem você conversa e que lhe dão todos esses dados, mas as pessoas com quem converso e com quem passo tempo — centenas e milhares delas — ainda não me apresentaram ninguém que tenha me dito ‘o Hamas é uma grande coisa’”.
A realidade que Warsi negou
Devemos mesmo acreditar que apenas “seis aberrados” no Reino Unido apoiam o Hamas, quando dezenas comemoraram e agitaram bandeiras palestinas em cidades de todo o país em 8 de outubro de 2023, inclusive médicos do NHS e imãs — alguns, sem dúvida, leitores do 5 Pillars, que repetiu a versão dos próprios mentores do Hamas sobre os ataques, sem qualquer contraponto? Ou quando, em junho de 2025, 40 organizações sediadas no Reino Unido pediram que o Hamas fosse retirado da lista britânica de organizações terroristas, depois que o escritório de advocacia Riverway Law e o grupo de pressão política e jurídica CAGE International protocolaram petições jurídicas junto à então ministra do Interior, Yvette Cooper?
Em novembro de 2023, o deputado trabalhista Christian Wakeford apontou Zaher Birawi, organizador das marchas semanais anti-Israel, como um dos quatro “agentes do Hamas” no Reino Unido. Outro era Mohammed Sawalha, um curador da Mesquita de Finsbury Park — uma entidade proeminente ligada ao Muslim Council of Britain (MCB), cujas campanhas contra a “islamofobia” a baronesa Warsi historicamente encabeçou, e de quem recebeu o prêmio de “Campeã Política” no jantar de gala de 2025. O ex-presidente da mesquita e ex-vice-secretário-geral do MCB, Mohammed Kozbar, elogiou o fundador do Hamas, xeique Ahmed Yassin, como “o senhor dos mártires da resistência”. A baronesa Warsi realmente nunca encontrou nenhuma dessas pessoas?
Seu discurso no jantar de gala do MCB em janeiro de 2025, publicado no Facebook, estava claramente voltado ao público da “resistência” quando ela disse: “Como ousam! Como ousam nos dizer quem pode falar em nosso nome... Como ousam nos dizer que vamos ser responsabilizados pelo que alguém possa ter dito duas décadas atrás!”
Ela aludia a uma declaração de 2009 assinada por um dos dirigentes do MCB, que parecia tolerar a violência contra as Forças Armadas britânicas caso elas apoiassem um bloqueio de armas contra Gaza. O governo rompeu o diálogo com o MCB na época, posição oficial que permanece em vigor.
Tudo isso ajuda a explicar a ascensão da Equi e sua tentativa de redirecionar recursos de um governo trabalhista ansioso para estancar a hemorragia do voto muçulmano desde o início da guerra de Israel em Gaza, em 2023. Seu discurso cuidadosamente construído na UCL estava muito distante de sua retórica inflamada em defesa do MCB. O governo não deveria cair nessa. Com o cabelo descoberto, sotaque de Yorkshire e um estilo de comunicação direto, de mangas arregaçadas — sem a mais mínima referência religiosa —, a baronesa Warsi nunca pareceu uma mulher que representasse um lobby religioso fundamentalista. E, no entanto, sempre foi.
Isso já deveria ter ficado claro quando, após pedir demissão do governo conservador em 2014 por causa de sua “posição moralmente indefensável sobre Gaza”, ela passou a liderar campanhas do MCB e do MEND para deslegitimar a autodefesa ocidental contra o extremismo islamista — inclusive o dever de prevenção antiterrorista Prevent — e para perseguir o Partido Conservador por sua suposta “islamofobia institucional”.
O que vem adiante
Chame de seu “ponto cego para a intolerância”, chame de condescendência com sua base política. Mas ela deixou de se posicionar contra uma das principais causas-raiz da “islamofobia” e do antissemitismo — a teologia islamista excludente e militante — porque, ao contrário de Sara Khan, a quem ela e o MCB tentaram intimidar para tirá-la do cargo de comissária de combate ao extremismo, ela nunca se dedicou de fato a isso. Sobre Khan, que em 2014 conduziu uma série itinerante de eventos para proteger jovens muçulmanos britânicos da propaganda on-line do Estado Islâmico, Warsi tuitou que ela é vista “simplesmente como uma criação e um porta-voz do Ministério do Interior”, acrescentando que Khan não tinha a “confiança” da comunidade muçulmana. Ao contrário de Warsi, vinda dos redutos deobandi de Dewsbury, Khan não demonstrava a mesma reticência em relação às visões hostis pregadas naquela comunidade contra seitas muçulmanas minoritárias, judeus, hindus e o Ocidente em geral.
Será uma medida fiel da credulidade, da miopia, da covardia e da inépcia do governo trabalhista se ele fizer da baronesa Warsi, uma pessoa sem histórico nem interesse em enfrentar o extremismo, sua “czar da hostilidade antimuçulmana”.
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