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A rede Haj Hamed no Iraque, sob nova leitura

O Irã não está abandonando as milícias iraquianas: está protegendo-as da pressão máxima americana

Ali Almrayatee é ex-intérprete de combate das Forças Armadas dos EUA durante a Operação Iraqi Freedom (Liberdade do Iraque). Depois, trabalhou como assessor sênior de segurança do Parlamento do Iraque, contribuindo para o resgate de reféns dos EUA em 2016 e para a batalha contra o ISIS, e como agente de inteligência antiterrorista a serviço de órgãos do governo dos EUA. Ele atuou como diplomata no Iraque e na Turquia, com foco em segurança internacional, extremismo, guerra híbrida e assuntos geopolíticos.

It was under the leadership of the late Qassem Soleimani, from 1998, that the Islamic Revolutionary Guard Corps’s Quds Force turned revolutionary and proxy warfare into a key tool of power projection for Tehran. Above: Soleimani’s funeral after he was killed by an American drone strike; Tehran, Jan. 7, 2020.
Sob o comando de Qassem Soleimani, a partir de 1998, a Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) transformou a guerra revolucionária e por procuração em instrumento central de projeção de poder de Teerã. Acima, o funeral de Soleimani, em janeiro de 2020, depois que ele foi morto por um ataque de drone americano. · Shutterstock

Uma análise do Middle East Forum Observer publicada em 30 de setembro de 2026 sustenta que a importância crescente da rede Haj Hamed indica que o Irã está perdendo confiança em seus parceiros tradicionais entre as milícias e transferindo operações críticas para células menores e compartimentadas, subordinadas diretamente à Guarda Revolucionária do Irã (IRGC). Embora plausível, essa conclusão obscurece uma postura iraniana estrategicamente mais coerente: o Irã não está abandonando suas milícias tradicionais, mas blindando-as da exposição à pressão máxima por meio de uma compartimentação deliberada.

Do ponto de vista estratégico, o Irã passou duas décadas transformando sua rede armada aliada em verdadeiros centros de poder no aparato político, de segurança e econômico de tomada de decisão do Iraque, o que deu a Teerã poder de barganha sobre o Estado iraquiano. Essas facções e milícias são as fiadoras do controle efetivo do Irã — não de mera influência — sobre as funções do Estado iraquiano; perdê-las significaria abrir mão do ativo mais importante do Irã e deslocar o equilíbrio regional de poder em favor dos Estados Unidos e de seus aliados.

A advertência do governo Trump de que os Estados Unidos suspenderiam as transferências mensais de dólares ao Iraque caso grupos armados alinhados ao Irã não se desarmassem — somada às sanções de maio de 2026 contra essas milícias — evidencia a pressão que elas enfrentam agora. Esse ambiente exige que as milícias que atuam tradicionalmente por procuração desacoplem temporariamente, das estruturas principais das milícias, as operações que envolvem sistemas de armas avançados e ataques transfronteiriços capazes de provocar respostas militares escalatórias dos EUA e de potências regionais. Se os militares dos EUA neutralizarem uma célula ligada a Haj Hamed, a liderança das milícias pode negar responsabilidade, e o governo iraquiano pode sustentá-lo de forma crível, minimizando a exposição da cúpula e da infraestrutura centrais das milícias a represálias.

A estratégia defensiva dos “Shadow Groups” não é nova. Nos anos que se seguiram ao foco do primeiro governo Trump no Irã e em seus grupos por procuração — sobretudo após o assassinato de Qassem Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis, em janeiro de 2020 —, as próprias facções milicianas iraquianas foram pioneiras nessa estratégia ao criar grupos de fachada. O grupo Ashab Al-Kahf — que surgiu em agosto de 2019, mas ampliou drasticamente sua atividade após a morte de Soleimani — é um exemplo. Apesar das negativas do Ashab Al-Kahf de vínculo com a Asa’ib Ahl al-Haq, indícios apontam para controle organizacional e subordinação operacional.

Após o ataque no bairro de Jadriya e a Pager Operation de Israel contra o Hezbollah, e diante da demonstração de que a inteligência americana e israelense podia penetrar os círculos milicianos superiores do Irã, líderes de facções iraquianas reconheceram a vulnerabilidade de estruturas de comando centralizadas e fragmentaram deliberadamente sua presença. Assim, a rede Haj Hamed não foi sinal de que a liderança havia perdido confiança no comando local das milícias, mas de que ela entendeu a determinação americana de desmantelar as estruturas milicianas e decidiu proteger o corpo principal dessas estruturas, deslocando a responsabilidade operacional para entidades subsidiárias que podem ser desautorizadas ou abandonadas sem destruir a organização central.

Isso também reflete o reconhecimento de que líderes estabelecidos são difíceis de substituir. O substituto de Hassan Nasrallah, Naim Qassem, é uma sombra do líder do Hezbollah a quem sucedeu. Da mesma forma, o sucessor de Soleimani, Esmail Qaani, não tem seu carisma nem sua influência.

O ataque de setembro de 2026 ao oleoduto saudita Leste-Oeste não é uma operação inédita a indicar mudança na doutrina iraniana; é uma operação tradicional conduzida por canais alternativos. As milícias tradicionais continuam fornecendo o pessoal; apenas o fazem por canais compartimentados e negáveis, que permitem a negativa plausível.

O fato de que, mais tarde, autoridades de segurança iraquianas atribuíram a operação à rede Haj Hamed, ligada à Guarda Revolucionária do Irã — após a entrevista do general de brigada reformado Ayad al-Tufan a um canal de notícias saudita — pode, por si só, ser uma estratégia deliberada para desviar a culpa das milícias tradicionais.

O comportamento posterior do governo iraquiano reforça essa leitura. Em vez de investigar e condenar unilateralmente a interferência iraniana, ele abriu uma investigação conjunta com o próprio Irã — resposta que não faria sentido se o governo encarasse essas operações como ações unilaterais iranianas que ameaçam a soberania iraquiana. Investigações conjuntas entre um Estado supostamente lesado e o acusado sugerem algo mais próximo da gestão colaborativa da narrativa do que de uma genuína apuração de responsabilidades entre adversários.

Leia o original em inglês: Rethinking the Haj Hamed Network in Iraq

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