Onde está o testamento de Ali Khamenei?
Autoridades iranianas não explicam por que o documento não veio a público e alegam que os filhos do aiatolá o guardam, embora seja improvável que exista uma única cópia
Potkin Azarmehr é jornalista investigativo e documentarista britânico, nascido no Irã. Já colaborou com diversos veículos de imprensa e organizações de pesquisa em políticas públicas, com análises aprofundadas sobre assuntos do Oriente Médio e o extremismo islâmico no Ocidente.

Ao mistério em torno do desaparecimento de Mojtaba Khamenei da vida pública — líder supremo nominal da República Islâmica — somam-se outras perguntas: onde está o testamento de seu pai, o falecido líder supremo Ali Khamenei? Por que ele não foi lido publicamente? Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini morreu, em 1989, Ali Khamenei leu em público seu testamento de 29 páginas. O documento expunha as opiniões de Khomeini sobre como o país deveria ser governado e como as autoridades deveriam se comportar após sua morte. Também justificava a repressão à esquerda iraniana, cujos integrantes foram massacrados por ordem de Khomeini no verão de 1988.
Em 5 de setembro de 2026, um estudante iraniano perguntou ao prefeito de Teerã, Alireza Zakani, onde estaria o testamento de Ali Khamenei. Visivelmente desconfortável, Zakani respondeu: “Quando o Líder foi martirizado, sua biblioteca também foi destruída no ataque. Se o testamento estava lá ou não e foi destruído junto? Não sei, mas, de todo modo, no momento, não se tem conhecimento de seu paradeiro.”
A explicação de Zakani pouco ajuda a entender por que o testamento de Khamenei não foi tornado público. Também seria muito improvável que existisse apenas uma cópia de um documento tão importante.
Suas declarações também parecem contradizer o que afirmou Ahmad Alamolhoda, integrante da Assembleia de Especialistas, órgão encarregado de escolher o líder supremo. Alamolhoda também é relevante por ser o líder das orações de sexta-feira em Mashhad, cidade natal de Ali Khamenei e local de seu sepultamento. Alamolhoda havia declarado que os filhos de Khamenei estavam com o testamento e que ele ainda não lhe havia chegado às mãos. Sabe-se que ao menos três filhos de Khamenei estão vivos. Ao contrário de Mojtaba, todos compareceram ao cortejo fúnebre. Isso levanta a pergunta: por que o testamento não foi tornado público, se está nas mãos dos filhos sobreviventes?
O último testamento disponível atribuído ao próprio Ali Khamenei data de 1963, quando ele era estudante de seminário e militava pela derrubada do xá. Khamenei escreveu aquele testamento depois que as forças do xá prenderam em massa estudantes de seminário pró-Khomeini em Qom, episódio do qual ele teve a sorte de escapar. Aquele testamento insignificante não continha instruções políticas. Khamenei afirmava ter pouco dinheiro a deixar e citava várias pessoas a quem devia dinheiro, entre elas Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, mais rico do que Khamenei e financiador da oposição islamista ao xá.
Rafsanjani mais tarde desempenharia papel decisivo para que Khamenei se tornasse líder supremo após a morte de Khomeini, o que lhe valeu a fama de fazedor de reis. Khamenei, porém, depois o marginalizou numa disputa de poder.
A importância do testamento está em saber se ele contradiz as ações e decisões da atual liderança. Ahmad Khatami, clérigo de alto escalão e integrante tanto do Conselho de Guardiões quanto da Assembleia de Especialistas, levantou essa possibilidade ao dizer, em 8 de setembro de 2026: “Não tenho conhecimento do testamento do líder martirizado. Cabe às figuras de alto escalão do regime decidir se o publicam ou não, caso exista. Mas o que preocupa alguns dos clérigos mais graduados é que o testamento possa conter material que seria usado pelos inimigos contra o atual líder.”
A República Islâmica enfrenta agora uma escolha: ou aposta ainda mais na legitimidade de Mojtaba e, nesse caso, precisa apresentar provas de que ele está vivo, ou reconhece que o testamento de Khamenei não favorecia Mojtaba como seu sucessor. De uma forma ou de outra, o momento do acerto de contas nessa crise de legitimidade se aproxima rapidamente.
Receba as análises do Middle East Forum por e-mail: assine a newsletter (em inglês)