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Observer

Um golpe silencioso no Irã?

O equilíbrio entre a autoridade clerical e o poder militar pode não ser mais o que já foi

Potkin Azarmehr é jornalista investigativo e documentarista britânico, nascido no Irã. Já colaborou com diversos veículos de imprensa e organizações de pesquisa em políticas públicas, com análises aprofundadas sobre assuntos do Oriente Médio e o extremismo islâmico no Ocidente.

A photo of Ayatollah Ruhollah Khomeini looms above Islamic Revolutionary Guard Corps ground forces in this file photo.
Integrantes da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) em foto de arquivo em Teerã. · Tasnim News Agency, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

O bayt do líder supremo Ali Khamenei —seu gabinete e seu círculo íntimo— funcionava como um governo paralelo, se não como o verdadeiro centro do poder no Irã, operando com disciplina excepcional e segurança rigorosa para proteger seus segredos mais sensíveis. Alguns ex-integrantes comentaram que o bayt era a entidade mais eficiente e disciplinada do regime.

Enquanto observadores externos viam um sistema teocrático dominado pela autoridade clerical e governado pelo clero xiita desde 1979, após a morte de Khamenei, em 28 de fevereiro de 2026, pode ter ocorrido uma transformação significativa: uma mudança de poder do establishment clerical para os militares.

O aiatolá Ruhollah Khomeini fundou a República Islâmica como um sistema em que a autoridade última cabia ao líder supremo, o jurista islâmico incontestável com a palavra final sobre todos os assuntos. O establishment clerical do Irã executava suas determinações, e os clérigos por ele nomeados supervisionavam cada organização e entidade. Para resguardar a teocracia, ele criou a Guarda Revolucionária do Irã (IRGC), menos para proteger fronteiras e mais para proteger a Revolução Islâmica e o clero no poder.

Ali Khamenei preservou esse equilíbrio ao assumir a liderança, em 1989. Embora a Guarda Revolucionária do Irã tenha crescido muito em influência, riqueza e alcance operacional, o Irã, inclusive suas forças militares, permaneceu sob o controle de Khamenei e do clero subordinado que lhe obedecia.

Khamenei foi cauteloso e vigilante para não permitir que a Guarda Revolucionária do Irã se sobrepusesse à liderança clerical. Segundo Kianoosh Razaghi, formado pela Universidade Imam Sadegh —instituição central na formação de quadros da República Islâmica, criada depois da revolução de 1979—, Khamenei tinha plena consciência do risco representado pelo poder crescente da Guarda Revolucionária.

As preocupações de Khamenei iam além do equilíbrio institucional e alcançavam a própria família. De seus quatro filhos —Mostafa, Mojtaba, Masoud e Meysam—, Mojtaba era o mais ambicioso, com laços estreitos com o aparato de segurança e militar. Razaghi afirma que Khamenei considerava arriscada a sucessão por Mojtaba, política e pessoalmente, temendo que vulnerabilidades como a alegada homossexualidade de Mojtaba pudessem desacreditar e desestabilizar o sistema.

Khamenei encarregou Masoud de dirigir o que pode ser descrito como um núcleo de estudos dentro de seu bayt —responsável por formular e executar projetos políticos centrais, inclusive o planejamento da sucessão. Segundo essa leitura, a ascensão de Masoud Pezeshkian à presidência após a morte de Ebrahim Raisi em um misterioso acidente de helicóptero foi mais um exemplo dos resultados planejados e manipulados por esse círculo íntimo sob a direção de Masoud.

A afirmação central de Razaghi é contundente: após a morte de Khamenei, a Guarda Revolucionária do Irã —sobretudo facções associadas a figuras como Mohammad Bagher Zolghadr e Ahmad Vahidi— assumiu efetivamente o controle, deixando o clero de lado.

Ele aponta anomalias para sustentar esse argumento. Primeiro, a Constituição iraniana define o processo de escolha de um líder supremo, mas esses procedimentos aparentemente não foram seguidos. Não seguir os próprios dispositivos constitucionais é uma manifestação de golpe, segundo Razaghi. Segundo, a alegada incapacitação de Mojtaba Khamenei no ataque aéreo que matou seu pai normalmente acionaria mecanismos de contingência claramente definidos, que também não foram seguidos. Terceiro, não houve divulgação pública do testamento de Khamenei, provavelmente para evitar a divulgação de seus desejos quanto à sucessão. O silêncio dos outros filhos de Khamenei, em especial Masoud, levantou mais dúvidas. Mesmo em situações em que se esperavam declarações públicas, como após as mortes de Kamal Kharazi e de sua mulher, a quem Masoud é ligado por casamento, não houve resposta.

Em conjunto, essas irregularidades sugerem que a Guarda Revolucionária contornou as estruturas formais da República Islâmica e usou o nome de Mojtaba Khamenei para legitimar a transição de poder, ainda que não haja confirmação de que ele esteja vivo.

Se for verdade, tal desdobramento não seria inédito na história iraniana. Nader Shah, governante do Irã no século 18 muitas vezes apelidado de “Napoleão da Pérsia”, veio de origem humilde e, para legitimar seu governo, inicialmente intitulou-se “Servo de Tahmasp”, o último monarca safávida, que a essa altura não passava de uma figura decorativa, antes de eliminá-lo e a seu herdeiro para pôr fim a mais de dois séculos de domínio safávida e fundar sua própria dinastia.

De modo semelhante, Reza Shah, fundador da dinastia Pahlavi em 1925, que modernizou o Irã, ascendeu na hierarquia militar a partir de origens humildes sob o último rei da dinastia Qajar, incompetente e sem disposição para governar, Ahmad Shah, servindo-lhe como comandante do Exército e primeiro-ministro. Nos dois casos, o poder militar deslocou gradualmente a autoridade estabelecida, mantendo temporariamente uma fachada de lealdade ao chefe agonizante da velha ordem.

No momento, as afirmações de Razaghi continuam especulativas. O sistema político opaco do Irã dificulta conclusões definitivas. Ainda assim, mesmo tomada apenas como conjectura, a tese repercute porque ajuda a explicar a lista crescente de perguntas sem resposta sobre os acontecimentos recentes dentro do Irã —perguntas que as narrativas oficiais não enfrentaram. Até a afirmação do presidente Donald Trump de que houve “mudança de regime” no Irã —ainda que retórica— ganha outra dimensão sob essa interpretação: não uma revolta popular, mas uma mudança interna de poder.

Tenha ou não ocorrido um “golpe silencioso”, uma coisa é clara: a dinâmica interna do Irã está evoluindo de maneiras que permanecem ocultas do público. O equilíbrio entre a autoridade clerical e o poder militar —por muito tempo traço definidor da República Islâmica— pode não ser mais o que já foi.

“Há quatro panelinhas de poder dentro da Guarda Revolucionária do Irã que até agora permaneceram intactas. Israel está remodelando o palco político do Irã com seus ataques seletivos”, explicou Razaghi. Não está claro, porém, qual grupo sairá vencedor.

Leia o original em inglês: A Quiet Coup in Iran?

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