Ataque no Hanucá tem raízes no afastamento dos judeus na Austrália
Camberra já andou ao lado dos Estados Unidos nas questões do Oriente Médio, inclusive em relação a Israel, mas o primeiro-ministro Albanese escolheu outro caminho
Danielle Pletka é pesquisadora sênior de destaque em Estudos de Política Externa e de Defesa no American Enterprise Institute, onde se dedica à política externa dos EUA, ao Oriente Médio e ao terrorismo.

Enquanto famílias judias de toda a Austrália celebravam a primeira noite de Hanukkah, tiros ecoaram em Bondi Beach, em Sydney. O alvo era uma festa, segundo o primeiro-ministro do estado de Nova Gales do Sul, Chris Minns, “no primeiro dia de Hanukkah. O que deveria ter sido uma noite de paz e alegria celebrada naquela comunidade com famílias e apoiadores foi destroçado por este ataque maligno e horripilante.” O número de mortos até o fechamento deste texto é de 12, incluindo um dos atiradores. A polícia identificou um dos atiradores como Naveed Akram.
A declaração de Minns chama a atenção pelo contraste com a reação imediata do primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese. Após o que foi claramente um ataque terrorista direcionado à comunidade judaica da Austrália, Albanese divulgou uma nota classificando os ataques como “chocantes e angustiantes”. Albo, como é conhecido, foi rápido em se solidarizar com “todas as pessoas afetadas”. Quem seriam essas “todas as pessoas”? Banhistas? Surfistas? O alvo era a celebração “Hanukkah à Beira-Mar” do festival judaico das luzes. Mas, para Albanese, mencionar judeus foi uma palavra a mais numa nota de setenta palavras. (Depois, ele condenou o ataque à comunidade judaica.)
Eis o problema: Albanese e sua ministra das Relações Exteriores, Penny Wong, fizeram o possível, nos vinte e seis meses desde os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, para sinalizar desinteresse pelo bem-estar das comunidades judaicas, em Israel, na Austrália e além. Como seus pares políticos na Europa e nos Estados Unidos, integrantes do Partido Trabalhista na Austrália se voltaram contra Israel e os sionistas em toda parte. E, como as franjas da esquerda nos Estados Unidos, na Espanha, na Inglaterra, no Canadá e na França, foram além, alinhando-se aos inimigos de Israel.
A emergência do ódio aos judeus na Austrália tem sido notável, mesmo para padrões internacionais. Judeus australianos, como boa parte das comunidades judaicas do mundo, acreditavam nas piedosas promessas do “nunca mais”, mas foram despertados de forma brutal quando, numa marcha pró-palestina em Sydney após 7 de outubro, manifestantes começaram a gritar: “Gaseiem os judeus.” Uma sinagoga foi alvo de ataque com bomba incendiária em Melbourne. O dirigente de uma das mais destacadas organizações judaicas da Austrália teve sua antiga casa vandalizada e incendiada em Sydney. Dois enfermeiros de Sydney foram filmados ameaçando matar judeus. As universidades, como nos Estados Unidos, trabalharam assiduamente para isolar estudantes judeus.
A diferença entre a Austrália e, digamos, os Estados Unidos é que o governo teve papel significativo no afastamento dos judeus. Como diria um presidente de Harvard, tudo depende do contexto. E, sob Albanese, o contexto tem sido uma hostilidade crescente ao Estado de Israel e a seus apoiadores. A Austrália repatriou recentemente suas próprias “noivas do Estado Islâmico” e acolheu ativistas pró-Hamas, mas barrou apoiadores de Israel, inclusive ex-ministros do governo israelense.
Nas Nações Unidas, onde Camberra já votou com regularidade ao lado dos Estados Unidos em temas do Oriente Médio, inclusive sobre Israel, Albo também seguiu por outro caminho. Depois de apoiar uma série de medidas que elevaram o status palestino dentro do organismo mundial, insistindo o tempo todo que isso não tinha a ver com reconhecer um Estado palestino, em novembro de 2024 o governo australiano votou pela primeira vez a favor de uma resolução que reconhecia a “soberania permanente do povo palestino no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental”.
Após novos passos que romperam com o histórico pró-Israel da Austrália, em setembro de 2025 Camberra reconheceu um “Estado da Palestina”. Segundo Albanese, “este é o mundo dizendo que o ciclo de violência tem de parar”. Mas Albanese apresentou poucas exigências concretas sobre como o “ciclo de violência” deveria parar, insistindo apenas em que o Hamas não poderia ter papel algum em uma futura “Palestina” e em que era necessária uma “reforma” na Autoridade Palestina.
Para a comunidade judaica australiana, a decisão de Albo de reconhecer a “Palestina” foi parte do mesmo quadro de seu desconforto crescente com judeus e sionistas. O primeiro-ministro demorou dias para visitar o local do ataque com bomba incendiária à sinagoga. E, diante de outros ataques claramente antissemitas, mostrou a mesma disposição de sustentar que os responsáveis eram criminosos, não antissemitas. A realidade, porém, era bem mais complexa: na verdade, criminosos vinham sendo recrutados pela República Islâmica do Irã para aterrorizar a comunidade judaica na Austrália.
Vale notar que, pelo que apurei, o primeiro-ministro e sua ministra das Relações Exteriores relutaram em responsabilizar o Irã pela sequência de ataques contra judeus e só foram levados a revelar o papel de Teerã quando a inteligência australiana ameaçou tornar públicas, ela própria, as revelações. Diante de informações de inteligência incontestáveis, Albanese acabou obrigado a expulsar o embaixador iraniano e, em seguida, classificou o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) como organização terrorista.
Infelizmente, porém, para os judeus da Austrália o ponto de retorno já ficou para trás. Como na França, onde muçulmanos superam judeus em pelo menos dez para um, os muçulmanos na Austrália hoje superam os judeus em oito para um. Essa realidade demográfica tem implicações políticas, e o Partido Trabalhista parece compreendê-las muito bem.
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