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Se a Turquia não tem ambições coloniais na Síria, que devolva Hatay

Em poucas palavras, a Turquia é hoje a maior potência ocupante em território sírio

Michael Rubin é especialista em Irã, Turquia e Chifre da África. Sua trajetória inclui a passagem por um cargo no Pentágono, com experiências de campo no Irã, no Iêmen e no Iraque, além de contatos com o Talibã antes do 11 de Setembro. Rubin também atuou na educação militar, ensinando unidades da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA sobre conflitos regionais e terrorismo. Sua produção acadêmica inclui diversas publicações importantes, como “Dancing with the Devil” e “Eternal Iran”. Rubin obteve doutorado e mestrado em história e bacharelado em biologia pela Universidade Yale.

Turkey's President Recep Tayyip Erdoğan in September 2025.
O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em setembro de 2025. · Shutterstock

O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan e seus aliados gostam de apresentar a Turquia como uma heroína anticolonial. Embora Erdoğan, islamista abstêmio, despreze o pai fundador do país, Mustafa Kemal Atatürk, um secularista alcoólatra, com frequência cita a experiência de Atatürk ao impedir a divisão colonial da Anatólia como prova de que a Turquia é um baluarte contra o colonialismo.

İlnur Çevik, editor de jornal e colunista conhecido, por exemplo, escreveu há uma década, no contexto da ofensiva diplomática de Erdoğan na África: “O movimento de libertação de Mustafa Kemal Atatürk na Anatólia, no século 20, foi fonte de inspiração para os africanos contra os colonialistas e opressores”.

Abdülkadir Özkan, ex-assessor de Erdoğan, defendeu tese semelhante em uma coluna de 2012 no diário islamista Millî Gazete. Depois da eclosão da guerra civil síria, escreveu: “Digamos desde já que todos os acontecimentos estão relacionados a interesses imperialistas e à segurança de Israel”. A Turquia, por outro lado, teria motivações puras, anti-imperialistas.

Evidentemente, a ideia de que a Turquia é anti-imperialista é farsesca. O Exército turco não apenas ocupa Chipre há mais de meio século, como explora ativamente seus recursos, sejam eles agricultura, pesca ou gás. A Turquia deve ao governo cipriota mais de US$ 100 bilhões por roubo de recursos, juros acumulados e reparações baseadas na negação de oportunidades de desenvolvimento. E Chipre não é caso isolado: a Turquia busca hoje se apropriar de recursos marítimos da Líbia e da Somália.

O regime de Erdoğan publicou mapas irredentistas que retratam todo Chipre e a Armênia, Creta e o norte da Grécia, além de partes da Bulgária, da Síria e do Iraque, como parte da Turquia. A recusa em aceitar que a Turquia viva dentro de suas próprias fronteiras está na base da retórica frequente de Erdoğan sobre revisar o Tratado de Lausanne. O neo-otomanismo, por sua vez, busca, em sua essência, reverter as fronteiras nacionais surgidas dos movimentos de libertação vitoriosos nos séculos 19 e 20.

Os defensores de Erdoğan nas organizações de pesquisa de Washington e na academia descartam sua retórica como palavras destinadas mais a apaziguar uma base nacionalista do que a servir de chamado literal à colonização. Os fatos consumados que a Turquia estabelece no terreno, porém, sugerem que o palavrório de Erdoğan oferece uma janela para sua verdadeira ambição. A Turquia mantém dezenas de bases no norte do Iraque. A presença de suas forças em Bashiqa tem mais a ver com suas reivindicações irredentistas sobre o antigo Vilayet de Mossul do que com qualquer necessidade de segurança. Mas em nenhum lugar a intenção colonial da Turquia é maior do que na Síria. A Turquia mantém agências de correio doméstico, por exemplo, em Al-Bab, Jarabulus, Afrin, Azaz e Tal Abyad. Na melhor das hipóteses, Erdoğan vê a Síria como um satélite, semelhante ao norte de Chipre e às áreas do Curdistão iraquiano controladas pelos Barzani; na pior, a Turquia a vê como seu futuro Anschluss.

Diplomatas turcos e os bajuladores de Erdoğan dentro do governo turco podem reagir com indignação, mas os sírios sabem das coisas. A investida imperial da Turquia sobre a Síria é anterior a Erdoğan e a seus esforços de usar a promessa de grandeza imperial para desviar a atenção dos desvios de recursos de sua família e da má gestão financeira de seu regime. De fato, remonta à própria fundação da Turquia.

Após a queda do Império Otomano, a Síria se formou a partir dos antigos vilayets otomanos de Damasco e Aleppo. A França ocupara um sanjak (distrito) de Alexandreta poucas semanas depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Para a França, tratava-se de uma tomada de território no momento em que a Liga das Nações se preparava para conceder mandatos. De 1921 a 1937, o Sanjak de Alexandreta foi autônomo, separado do resto da Síria, assim como o Líbano.

À medida que o mandato francês se aproximava do fim, Atatürk passou a defender a adesão de Alexandreta à Turquia. A população tinha pouco interesse na Turquia. Como armênios e árabes, a maioria dos moradores buscava a independência ou a incorporação formal à Síria. Em essência, Atatürk, que construiu sua legitimidade sobre a expulsão de potências estrangeiras da Anatólia, fez o oposto, ao buscar impor pela força militar uma reivindicação injusta.

Quando os fatos não sustentavam suas alegações, Atatürk recorreu à fantasia. Cunhou o termo “Hatay” para a região, afirmando retroativamente que seus habitantes descendiam dos hititas. Após extensas negociações, a Liga das Nações abençoou a criação, em setembro de 1938, do Estado de Hatay, independente, mas ligado à Síria em matéria de política externa.

Um ano depois, o sonho de independência acabou. O governo turco enviou dezenas de milhares de turcos a Hatay às vésperas de um referendo sobre a continuidade do Estado; eles votaram pela adesão à Turquia. A França, por sua vez, consentiu cinicamente com a tomada imperial de território pela Turquia para evitar que o país se aliasse à Alemanha nazista às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Como em todo apaziguamento da Turquia, a estratégia fracassou: a Turquia permaneceu oficialmente neutra, mas abasteceu a máquina militar nazista com a cromita de que Berlim precisava para motores de aeronaves e veículos blindados.

Hoje, a hipocrisia de Erdoğan está a todo vapor, já que ele exige que a Somalilândia permaneça na Somália em suposto respeito à soberania, ao mesmo tempo em que finge que a anexação turca de um território que sempre foi sírio, se não independente, é legítima.

Erdoğan também finge ser aliado da Síria, protegendo sua soberania contra a descentralização do poder em regiões de população curda ou contra ameaças exageradas vindas de Israel. Sua hipocrisia é estarrecedora. Enquanto Israel controla uma zona-tampão de 155 milhas quadradas no sul da Síria, a ocupação turca de Hatay corresponde a uma área mais de treze vezes maior. Em poucas palavras, a Turquia é a maior potência ocupante na Síria.

Se a Turquia de fato se opõe ao imperialismo, talvez devesse praticar o imperialismo. Da mesma forma, se o presidente interino Ahmed al-Sharaa de fato defende a soberania da Síria, não deveria permanecer calado sobre a ocupação turca. Os sírios deveriam exigir nada menos que a retirada completa da Turquia e o fim da mais longa ocupação do Oriente Médio.

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