Mudança de regime no Irã pode dividir o Iraque
O controle dos campos de petróleo, portos, passagens de fronteira e cidades santas do sul daria sustentação à autonomia das milícias
Ali Mahmoud Alabraz é jornalista e pesquisador iraquiano dedicado ao estudo de grupos armados no Iraque e no Oriente Médio. Seu trabalho analisa a dinâmica dessas organizações e como elas moldam a autoridade do Estado, as instituições e a sociedade. Siga-o no X, em @AliMahm49383150.

Em 20 de outubro de 2026, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, afirmou ter discutido com o presidente Donald Trump a derrubada do regime do Irã. O que pode acontecer se a República Islâmica do Irã ruir? Uma mudança efetiva de regime em Teerã certamente pode desencadear uma crise no Iraque se as milícias, o clérigo Muqtada al-Sadr e o establishment religioso na cidade xiita de Najaf convergirem para preservar o controle xiita do governo ou apoiar uma entidade separatista no sul.
Há sinais de alerta. Em 4 de março de 2025, Hussein Mounis, do bloco Hoquq, ligado ao Kata’ib Hezbollah, propôs a independência de nove províncias de maioria xiita caso os xiitas perdessem o poder em Bagdá. Como observou o ex-primeiro-ministro Nouri al-Maliki, essa partição deixaria a riqueza do petróleo em mãos xiitas. As declarações reavivaram uma proposta de 2005 para uma região xiita no sul, embora por meio do federalismo constitucional, e não da secessão.
Pelas convenções consolidadas após a invasão dos EUA de 2003, os xiitas ocupam o cargo de primeiro-ministro, um árabe sunita preside o Parlamento e os curdos ficam com a Presidência da República, embora a Constituição não determine essa distribuição. Em 2006, o Iraq Study Group relatou que o Grande Aiatolá Ali al-Sistani incentivava a unidade política xiita dentro do Iraque.
Em 2014, a conquista de boa parte do noroeste iraquiano pelo Estado Islâmico levou Sistani a emitir uma fatwa para mobilizar os xiitas, Sadr a formar as Brigadas da Paz e facções apoiadas pelo Irã a intervir. Os motivos diferiam, mas eles enfrentaram conjuntamente uma ameaça a Bagdá e às cidades-santuário xiitas.
O movimento de protestos de 2019 representou um desafio diferente. O establishment clerical pressionou o primeiro-ministro Adil Abdul Mahdi a renunciar depois que o representante de Sistani advertiu que a predominância política poderia passar a outras comunidades. Os “capacetes azuis” ligados a Sadr atacaram manifestantes; testemunhas atribuíram sete mortes em Najaf, em fevereiro de 2020, a homens armados ligados a Sadr, segundo relatos da Organização das Nações Unidas. As milícias também recorreram à força letal. O líder do Corpo Badr, Hadi al-Amiri, elogiou as facções por enfrentarem o que chamou de “sedição de outubro” e por preservarem a ordem política, sem admitir assassinatos. O governo caiu, mas o controle xiita do cargo de primeiro-ministro sobreviveu.
A República Islâmica ajudou a sustentar essa ordem por meio do apoio da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC) a facções políticas e redes comerciais. O colapso do regime em Teerã não apagaria as estruturas de poder iraquianas: Najaf manteria sua influência religiosa, Sadr continuaria a comandar seguidores e as milícias apoiadas pelo Irã seguiriam dispondo de armas, centenas de milhões de dólares e poder institucional. O temor de perder o cargo de primeiro-ministro poderia estimular a cooperação entre rivais.
Uma alternativa seria o recuo para a região sul, que possui campos de petróleo, portos, passagens de fronteira e as cidades-santuário de Najaf e Karbala. O controle da receita de tudo isso poderia sustentar a autonomia das milícias sem Teerã.
O colapso do regime do Irã também poderia levar a China a apoiar uma entidade dominada por milícias no sul do Iraque para proteger seus interesses, sobretudo se Pequim precisar de um substituto para sua parceria com o Irã. Os interesses chineses em campos petrolíferos iraquianos poderiam servir de incentivo econômico para assegurar uma fonte alternativa de influência e garantir o fornecimento ininterrupto de petróleo. O apoio chinês poderia dar respaldo econômico e político, reforçar a capacidade de sobrevivência da região sul e transformar a eventual partição do Iraque em uma arena de disputa entre Washington e Pequim.
Para as monarquias árabes do Golfo, um enclave armado no sul poderia lembrar o desafio houthi — na margem norte do Golfo Pérsico.
Essa possibilidade expõe um ponto cego estratégico na abordagem adotada pelo enviado dos EUA Tom Barrack e pelo secretário de Estado Marco Rubio. Washington concordou em prorrogar até 30 de junho de 2027 o prazo para submeter as armas das milícias ao controle do Estado, privilegiando a negociação e a integração gradual. Mas esse entendimento não oferece resposta clara às facções que rejeitam o modelo do Departamento de Estado e buscam, em vez disso, a autonomia do sul depois de um colapso do Irã.
Essas organizações veem suas armas como garantia de sobrevivência política e militar. Em 21 de outubro, o Harakat al-Nujaba rejeitou o desarmamento e a participação no processo político. Declarações separatistas anteriores sugerem que algumas facções cogitam alternativas territoriais caso o equilíbrio de poder em Bagdá mude.
A prorrogação também dá às facções tempo para consolidar redes financeiras, reforçar posições políticas e se reposicionar. Figuras ligadas às milícias ocupam altos cargos do governo mesmo enquanto suas organizações mantêm capacidade armada independente. Washington corre o risco de conferir legitimidade antes de obter um desarmamento efetivo.
O primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, enfrenta, portanto, mais do que um desafio de desarmamento. Integrar combatentes às instituições do Estado não elimina cadeias de comando, financiamentos e lealdades paralelos. Impedir a fragmentação territorial exige proteger as instalações de petróleo e as instituições provinciais da captura armada.
O colapso do regime do Irã poderia oferecer ao Iraque a oportunidade de desmontar o poder das milícias e superar as convenções sectárias herdadas de 2003. Mas a demora pode estimular as milícias a superar rivalidades e reavivar o projeto da região sul para salvaguardar suas armas e seu domínio político. A disputa central passará rapidamente a ser se o Iraque consegue instaurar a autoridade do Estado antes que uma crise do Irã transforme o desarmamento em uma luta pelas fronteiras do país.
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