Papa Leão condena operação dos EUA e de Israel e silencia sobre a tirania iraniana
O pontífice havia recusado um apelo para falar em defesa dos cristãos perseguidos no Irã
Jules Gomes é estudioso da Bíblia e jornalista radicado em Roma.

Dois meses depois de rejeitar um apelo do príncipe herdeiro iraniano no exílio, Reza Pahlavi, para interceder em favor dos cristãos perseguidos no Irã, o papa Leão XIV fez uma repreensão velada ao ataque de EUA e Israel contra a teocracia de Teerã.
“A estabilidade e a paz não se alcançam por meio de ameaças mútuas, nem pelo uso das armas, que semeiam destruição, sofrimento e morte, mas somente por meio de um diálogo razoável, sincero e responsável”, declarou Leão em sua alocução do Angelus, em 1º de março de 2026.
Falando da janela com vista para a praça de São Pedro, o pontífice pediu a retomada da diplomacia, advertiu para uma apocalíptica “tragédia de proporções imensas” e exortou todas as partes a deter “a espiral de violência antes que ela se torne um abismo intransponível”.
Interpretando a declaração papal como um aceno de apaziguamento ao regime iraniano, centenas de pessoas criticaram duramente o papa nas redes sociais por não condenar o massacre de mais de 30.000 manifestantes pró-democracia promovido pelo Irã em 8 e 9 de janeiro de 2026. O Center for Human Rights in Iran registrou a prisão de mais de 53.000 pessoas, entre elas 555 crianças.
“O papa Leão não faz nenhuma referência à matança a sangue-frio de milhares de cidadãos pelo regime iraniano”, escreveu Damian Thompson, editor associado da The Spectator. Thompson, jornalista católico que em geral apoia Leão, observou que a esquerda católica também não recebeu a condenação inequívoca do presidente Donald Trump que vinha esperando.
“Em vez de recorrer à doutrina da Igreja, o Vaticano fala como uma ONG globalista kantiana, cuidadosamente alinhada à esquerda europeia, aplicando apenas aos países ocidentais os padrões morais utópicos mais escrupulosamente refinados — que deixa de aplicar aos países não ocidentais”, explicou John Zmirak, autor de The Politically Incorrect Guide to Catholicism.
“Isso não é raciocínio moral católico, mas culpa branca transformada em arma — a visão de mundo de luxo de nossas elites gordas, estéreis e covardes. Se eu fosse um cristão iraniano suportando o regime maligno daquele país, me sentiria completamente traído”, lamentou Zmirak.
Leão “ignorou por completo” a repressão iraniana “como se ela não existisse”, advertira antes a vaticanista Franca Giansoldati. “Estranhamente, não há uma palavra sobre o Irã, nem sequer uma menção indireta, escondida nas entrelinhas.”
O silêncio de Leão sobre o Irã “parece seguir a linha muito cautelosa e temerosa de seu predecessor Bergoglio, que sempre fingiu não ver nem mesmo o longo rastro de sangue de milhares e milhares de garotas, em sua maioria estudantes, brutalmente massacradas, estupradas, muitas vezes enforcadas pelo regime dos aiatolás nos últimos anos apenas por tirarem o véu”, enfatizou Giansoldati.
Na véspera de Natal, o príncipe herdeiro iraniano no exílio escreveu a Leão, instando-o a usar “canais diplomáticos” para “falar publicamente” em nome dos cristãos perseguidos no Irã. Pahlavi detalhou a situação dos muçulmanos convertidos ao cristianismo, entre eles “cristãos batizados que buscam a plena comunhão com a Igreja Católica”.
“Somente em 2024, convertidos cristãos no Irã receberam, somados, 263 anos de prisão e trinta e sete anos de exílio interno por ‘crimes’ diretamente relacionados à prática de sua fé”, escreveu Pahlavi, ressaltando que “isso representa um aumento de quase seis vezes na duração das penas em comparação com 2023”.
Um levantamento de 2020 do Group for Analyzing and Measuring Attitudes in Iran (GAMAAN) estima em 1,2 milhão o número de convertidos em todo o Irã. “Dizer que está ocorrendo uma revolução espiritual no Irã é um tremendo eufemismo”, comentou o reverendo Sasan Tavassoli, convertido no Irã. “É o fracasso total da tentativa de doutrinação da geração posterior à Revolução Islâmica promovida pelo regime.”
Em 9 de janeiro de 2026, Mohammad Hossein Mokhtari, embaixador do Irã junto à Santa Sé, participou da troca papal de cumprimentos com o corpo diplomático. O papa manteve-se em silêncio sobre a repressão de Teerã. A única reação do Vaticano à crise veio em um comentário informal de seu secretário de Estado. Dias depois, à margem de uma celebração litúrgica, o cardeal Pietro Parolin perguntou como, em um país do Oriente Médio, “é possível atacar o próprio povo”.
Enquanto as relações diplomáticas com o Irã permaneceram sólidas, os laços diplomáticos entre o Vaticano e os EUA e entre o Vaticano e Israel se deterioraram durante o segundo mandato de Trump na Casa Branca, em razão das críticas da hierarquia católica às políticas dos EUA e à resposta de Israel ao massacre de civis israelenses perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.
A Santa Sé estabeleceu relações diplomáticas com Teerã em 1966. Em contraste, o Vaticano só estabeleceu laços diplomáticos com Israel em 1993. Diante dessa história diplomática, o Vaticano “provavelmente não tomará uma posição clara sobre os acontecimentos no Irã”, concluiu Andrea Gagliarducci, correspondente da EWTN no Vaticano.
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