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Papa Leão se recusa a denunciar a perseguição islamista a cristãos na Argélia

A homenagem do pontífice no memorial dos mártires reacende a controvérsia sobre a limpeza étnica dos católicos pieds-noirs

Jules Gomes é estudioso da Bíblia e jornalista radicado em Roma.

Pope Leo XIV appears at the central loggia of St. Peter’s Basilica in Vatican City in May 2025.
O papa Leão 14 aparece na sacada central da Basílica de São Pedro, no Vaticano, em maio de 2025. · Shutterstock

O papa Leão XIV rechaçou apelos de defensores da liberdade religiosa para que voltasse sua atenção à perseguição islamista a cristãos chancelada pelo Estado durante sua viagem à Argélia, em 13 e 14 de abril de 2026.

O pontífice, que iniciou uma viagem de dez dias pela África com uma visita à Argélia, prestou homenagem a revolucionários marxistas e muçulmanos no Memorial dos Mártires, mas não visitou o mosteiro de Tibhirine no 30º aniversário do sequestro e da decapitação, por islamistas, de sete monges trapistas no local.

Comentaristas franceses destacaram a ironia da genuflexão papal no Memorial e lembraram que a guerra de independência da Argélia resultou em massacres e na expulsão de 1 milhão de pieds-noirs — em sua maioria católicos franceses nascidos na Argélia.

Na véspera do voo de Leão XIV a Argel, o Centro Europeu para o Direito e a Justiça (European Centre for Law and Justice) chamou atenção para a opressão de cristãos na Argélia, afirmando: “Segundo a Constituição argelina, o islã é a religião do Estado, o que levou o ex-presidente do Alto Conselho Islâmico a declarar que ‘um argelino só pode ser muçulmano’ (2021).”

O pontífice ignorou apelos para que intercedesse em favor da liberdade religiosa. “A Argélia impõe uma identidade única, ao mesmo tempo árabe e muçulmana, em detrimento das minorias, em particular judeus, ahmadis e cristãos. Em 2020, a liberdade de consciência foi retirada da Constituição”, advertia a petição, assinada por líderes políticos, especialistas em direitos humanos, filósofos, juristas, escritores e argelinos exilados.

Em vez disso, ao se dirigir ao presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, o pontífice pareceu retomar sua retórica contra os Estados Unidos e Israel, ao condenar as “constantes violações do direito internacional e as tentações neocoloniais”.

O papa comentou as “dinâmicas opostas de fundamentalismo e secularização” que se manifestariam quando “símbolos e palavras religiosos” se tornam “linguagens blasfemas de violência e opressão” ou “signos vazios no imenso mercado do consumo”.

Leão XIV enfrentou reação de católicos depois de visitar a Grande Mesquita de Argel e usar a palavra “comunhão” para definir os laços entre cristãos e muçulmanos sob o “amor materno” de Maria, vínculo que eles afirmam ser fictício.

No primeiro dia da visita do papa, a Alliance for Defending Freedom publicou tuítes pedindo pelo pastor Youssef Ourahmane, convertido do islã e líder de igreja, que a Argélia prendeu por “culto ilegal”.

Ao destacar outro caso, o repórter do Vaticano Arthur Herlin disse ter pedido a Leão XIV que intercedesse pela libertação do jornalista Christophe Gleizes, condenado a sete anos de prisão. Herlin tuitou: “O papa assentiu várias vezes e me respondeu: ‘Sim, conheço o caso de Christophe Gleizes’.”

Ativistas de direitos humanos começaram a pressionar Leão XIV para que se manifestasse em favor dos cristãos da Argélia depois que o Vaticano anunciou a viagem. Em 18 de março, o Centro Europeu para o Direito e a Justiça se dirigiu às Nações Unidas sobre a deterioração da liberdade religiosa na Argélia, antecipando a então próxima visita do pontífice ao país.

Os evangélicos são os mais vulneráveis porque “seu compromisso missionário os submete a pressão constante”, enquanto “a Igreja Católica hoje prioriza apenas o diálogo inter-religioso em detrimento da evangelização, e as autoridades argelinas se valem disso para projetar uma imagem de tolerância”, observaram porta-vozes do Centro Europeu para o Direito e a Justiça.

Djamila Djelloul, convertida do islã, instou Leão XIV “a exigir verdadeira liberdade de consciência — o direito de mudar de religião para os que vêm do islã —, não apenas a liberdade de culto para os cristãos que já estão lá”.

Em 8 de abril, o Centro Europeu para o Direito e a Justiça publicou The Oppression of Christians in Algeria, relatório que observou que o governo reduziu o catolicismo a uma religião tolerada pelo Estado e sem papel missionário quando a Argélia se tornou independente, em 1962.

Desde 2006, o governo fechou 58 igrejas protestantes, deixando apenas três abertas, entre elas uma igreja internacional, privando protestantes da liberdade de culto. A portaria de 2006 pune com cinco anos de prisão qualquer tentativa de evangelizar muçulmanos.

Como a Argélia fornece energia à Europa, é parceira dos EUA no combate ao terrorismo e compra armas da Rússia, atores internacionais não querem contrariar o governo ao levantar a questão da liberdade religiosa, o que deixa instâncias como o Vaticano na posição de interceder por cristãos perseguidos.

O denunciante argelino Chawki Benzehra afirmou que a visita de Leão XIV “poderia ter sido um acontecimento histórico se ele tivesse escolhido denunciar a perseguição dos cristãos pelos islamistas, bem como as violações de sua liberdade de culto pelo regime argelino”. Mas, disse ele, “infelizmente, ele escolheu o caminho de não contrariar as autoridades argelinas, chegando ao ponto de renunciar a uma visita ao mosteiro de Tibhirine, onde monges foram assassinados. Até hoje, o regime argelino ainda se recusa a esclarecer plenamente esse caso”.

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