O Golfo muda de lado: retaliação iraniana une o mundo árabe contra o eixo xiita
Um novo alinhamento regional contra Teerã se formou enquanto os mísseis iranianos ainda estavam no ar
Gregg Roman é diretor-executivo do Middle East Forum, organização de pesquisa aplicada em políticas públicas. Em 2014, a Jewish Telegraphic Agency o incluiu entre os “dez líderes judeus mais inspiradores do mundo” e, antes disso, foi assessor político do vice-ministro das Relações Exteriores de Israel e trabalhou no Ministério da Defesa israelense. Palestrante frequente sobre assuntos do Oriente Médio, Roman já prestou depoimento no Congresso dos EUA e no Knesset e participa de canais internacionais de notícias como Fox News, i24NEWS, Al Jazeera, BBC World News e os Canais 12 e 13 de Israel. Estudou segurança nacional e comunicação política na American University e no Interdisciplinary Center, em Herzliya, e já escreveu para The Hill, Newsweek, Los Angeles Times, Miami Herald e Jerusalem Post.

A República Islâmica passou quatro décadas construindo a narrativa de um “eixo da resistência” para se apresentar como campeã do mundo muçulmano diante do poder ocidental e israelense. Em uma única manhã, os mísseis balísticos iranianos destruíram essa narrativa de forma mais completa do que qualquer bomba americana ou israelense poderia fazê-lo.
Em poucas horas após os ataques retaliatórios do Irã contra países do Golfo, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos emitiram condenações oficiais — não à campanha americano-israelense contra o Irã, mas ao próprio Irã. A linguagem foi extraordinária em sua precisão e em sua fúria. Não eram cautelosas manifestações diplomáticas de preocupação. Eram declarações de um novo alinhamento regional contra Teerã, divulgadas enquanto os mísseis iranianos ainda estavam no ar.
O que diziam os comunicados
O Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita condenou “nos termos mais enérgicos a flagrante agressão iraniana e a flagrante violação da soberania” dos Emirados, do Bahrein, do Qatar, do Kuwait e da Jordânia — listando cada país atingido pelo nome. Riad afirmou “total solidariedade” com os países alvo, colocou “todas as suas capacidades” à disposição deles e alertou para “graves consequências” decorrentes da continuidade das violações da soberania e do direito internacional. O reino então conclamou toda a comunidade internacional a condenar os ataques e a adotar “todas as medidas firmes” contra as violações iranianas que “minam a segurança e a estabilidade da região”.
O Centro Nacional de Comunicação do Bahrein confirmou que o reino havia sido “submetido a ataques externos contra locais e instalações dentro de suas fronteiras”. Manama classificou os ataques como “flagrante violação” da soberania e — ponto crucial — afirmou “seu pleno direito de responder e de tomar todas as medidas necessárias para defender sua segurança nacional”, em coordenação com “aliados e parceiros”. Essa última expressão tem peso. O Bahrein abriga a Quinta Frota dos EUA. Os “aliados e parceiros” não deixam margem a dúvida.
O Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos confirmou que o país foi atingido por “mísseis balísticos iranianos”, que as defesas aéreas interceptaram alguns deles com “alta eficiência”, mas que destroços em queda atingiram uma área residencial, causaram danos materiais e mataram um civil — descrito como de nacionalidade asiática. O ministério chamou o ataque de “uma escalada perigosa e um ato covarde” e afirmou que os Emirados “reservam-se o pleno direito de responder a essa escalada”.
O que os comunicados não disseram
As ausências importam tanto quanto as declarações.
Nenhum país do Golfo condenou os ataques americano-israelenses contra o Irã. Nenhum país do Golfo pediu cessar-fogo. Nenhum país do Golfo invocou solidariedade muçulmana com a República Islâmica. Nenhum país do Golfo chamou de volta seu embaixador em Washington ou em Jerusalém. Nenhum país do Golfo exigiu uma sessão de emergência da Liga Árabe para censurar a coalizão. A Arábia Saudita — que normalizou relações com o Irã em um acordo intermediado pela China em 2023 — não tergiversou, não relativizou nem pediu desescalada de ambos os lados. Condenou o Irã pelo nome, ofereceu apoio militar aos países atingidos e cobrou providências internacionais.
É o oposto da reação que Teerã esperava. Há décadas, a lógica estratégica do Irã se apoia numa premissa: a de que qualquer conflito com Israel ou com os Estados Unidos geraria simpatia popular e governamental suficiente no mundo árabe sunita para constranger uma coalizão liderada pelos americanos. A República Islâmica apostou que suas forças de mísseis poderiam atingir bases americanas no Golfo com relativa impunidade, porque os governos anfitriões culpariam Washington, e não Teerã, pela escalada.
Essa aposta fracassou hoje.
Por que fracassou
Três fatores explicam a resposta unificada do Golfo.
Primeiro, o Irã atingiu território árabe soberano. Qualquer ambiguidade diplomática que os países do Golfo pudessem manter em relação ao conflito mais amplo evaporou no instante em que mísseis balísticos iranianos caíram em solo bareinita, emiradense, catariano, kuwaitiano e jordaniano. Um civil morreu nos Emirados. Instalações foram atingidas no Bahrein. Isso não foi dano colateral de uma guerra distante — foi um ataque iraniano direto contra países árabes, e deu a cada governo alvo tanto cobertura política quanto um imperativo interno para responder com firmeza.
Segundo, os países do Golfo se prepararam para esse momento. A reaproximação saudita-iraniana de 2023 sempre foi transacional, nunca transformadora. Riad manteve sua relação de defesa com Washington, continuou adquirindo sistemas militares avançados e jamais desmobilizou sua postura estratégica contra o expansionismo iraniano. Os Emirados são, há anos, o país do Golfo mais linha-dura em relação ao Irã. O Bahrein, com sua monarquia sunita governando uma população de maioria xiita que Teerã repetidamente tentou subverter, enxerga a República Islâmica como uma ameaça existencial. Nenhum desses governos se surpreendeu com a agressão iraniana. Estavam preparados para ela.
Terceiro, Teerã não lhes ofereceu nada que valesse a pena preservar. A proposta de valor da República Islâmica ao mundo árabe sempre foi limitada — retórica de resistência, guerra por procuração em países alheios e a ameaça implícita de desestabilização. Em 2026, com a economia do Irã em colapso, sua população em revolta e suas capacidades militares expostas como ocas, os países do Golfo não tinham nenhum incentivo para proteger um regime que, ao mesmo tempo, atacava seu território e perdia uma guerra que ele próprio iniciou.
O realinhamento regional
As implicações vão além da crise imediata.
O comunicado da Arábia Saudita — ao oferecer todas as suas capacidades aos países atingidos e exigir ação internacional — posiciona Riad não como mediadora neutra, mas como participante ativa de uma coalizão regional contra o Irã. Trata-se de uma mudança drástica em relação à postura cautelosa que o reino manteve em confrontos anteriores entre Irã e Israel. A reaproximação de 2023 com Teerã está, na prática, morta. Os mísseis iranianos a mataram.
A afirmação do Bahrein sobre seu direito de responder “em coordenação com aliados e parceiros” é o sinal mais claro até aqui de que Manama pode autorizar o uso ampliado de instalações militares americanas em seu território — ou participar diretamente de operações defensivas contra novos ataques iranianos. O quartel-general da Quinta Frota foi alvo. A resposta do Bahrein não vai se limitar a uma nota à imprensa.
A confirmação, pelos Emirados, da morte de um civil muda o cálculo jurídico e político. Um civil morto em solo emiradense por um míssil balístico iraniano dá a Abu Dhabi um casus belli no direito internacional e base política interna para escalar sua resposta. A linguagem do Ministério da Defesa — “reservam-se o pleno direito de responder” — é um aviso, não um lugar-comum.
O eixo do isolamento
As implicações desses comunicados — ao lado da ordem de evacuação do Cazaquistão e do apelo da Autoridade Palestina para que seus cidadãos deixem o Irã — são o surgimento do que só pode ser descrito como um eixo de isolamento em torno da República Islâmica. Os países que o Irã atacou o condenam. Os países que o Irã não atacou estão evacuando dali. A população que o Irã afirma liderar está comemorando os ataques contra ele.
O “eixo da resistência” de Teerã sempre foi um eufemismo para uma rede de violência dirigida pelo Irã, destinada a projetar poder por meio de procuradores e intimidação. A fragilidade fundamental desse modelo agora fica exposta: quando o centro está sob ataque sustentado e os procuradores não conseguem protegê-lo, toda a estrutura passa a depender de uma simpatia e de uma solidariedade externas que não existem. O mundo árabe não está se mobilizando em defesa do Irã. Está se alinhando contra ele.
A República Islâmica descobrirá nos próximos dias que alcançou algo notável — uniu os países árabes do Golfo, os Estados Unidos e Israel em uma causa comum. Não pela diplomacia. Por seus próprios mísseis.
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