Massacre de cristãos ortodoxos em Karak exige mais do que condolências
Amã atribuiu o ataque ao Estado Islâmico e disse ter informações de inteligência sobre atentados iminentes.
Christos Konstantinidis é jornalista, editor-chefe do Geopolitico.gr, cossócio do PontosVoice.com e membro do International Institute of Strategy (Instituto Internacional de Estratégia).

Milhares de pessoas acompanharam, em 25 de outubro de 2026, os funerais das nove vítimas do ataque terrorista à igreja ortodoxa grega de Karak, ocorrido apenas dois dias antes. O príncipe herdeiro Hussein e o primeiro-ministro Jafar Hassan representaram o rei Abdullah II e transmitiram a solidariedade da cúpula do país.
As autoridades prenderam dois irmãos e o cunhado deles. Em 26 de outubro, a força aérea jordaniana bombardeou alvos no sul da Síria, vinculando oficialmente os atacantes a células terroristas do outro lado da fronteira.
A Síria também tem enfrentado ataques extremistas islâmicos contra igrejas. Um atentado em 24 de julho de 2022, durante a consagração da igreja de Santa Sofia em Suqaylabiyah, na Síria, deixou dois mortos. Em 22 de junho de 2025, um terrorista cometeu um atentado suicida na igreja do Profeta Elias, em Damasco, matando 25 pessoas. Em março de 2026, o Patriarcado de Antioquia condenou ataques a propriedades cristãs e a um santuário da Virgem Maria em Suqaylabiyah.
O pesquisador de violência política Murad Batal al-Shishani explica que ataques desse tipo espalham medo e minam a confiança na segurança pública. Amer Sabaileh adverte que a imagem oficial de moderação pode ocultar uma radicalização mais profunda.
Grécia, Estados Unidos, Israel, Chipre, governos árabes, a União Europeia, as Nações Unidas e líderes religiosos condenaram o crime. Atenas, no entanto, deveria ter dado mais peso à sua manifestação de solidariedade. O analista estratégico e ex-oficial do Serviço Nacional de Inteligência da Grécia Savvas Kalenteridis faz a pergunta: “Um ministro grego não deveria ter comparecido ao funeral?”. Ele observa que as declarações das embaixadas dos EUA e de Israel se referem a um massacre de cristãos ortodoxos gregos e critica a aparente preocupação limitada na Grécia e a escassa cobertura televisiva.
A Grécia tem laços históricos, eclesiásticos e diplomáticos com essas comunidades. Precisa manter um canal permanente de comunicação com seus representantes, documentar ameaças e exigir compromissos específicos dos governos antes que as famílias busquem segurança como refugiadas.
Amã apontou o Estado Islâmico como responsável pelo ataque, citou informações de inteligência sobre atentados iminentes e realizou um ataque preventivo por meio da operação “Dissuasão Jordaniana-Hamoud”, sem coordenação com Damasco.
Kalenteridis acredita que registros telefônicos revelaram que a ação foi comandada a partir da Síria. Ele também enxerga uma mensagem mais ampla. “A Jordânia não atingiu simplesmente o presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, mas o aliado da Turquia”, disse ele, associando o recado não só ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, como também ao presidente Donald Trump e seu enviado Tom Barrack.
A Europa também dispõe de instrumentos de pressão. Nikolas Farantouris, deputado do Parlamento Europeu e integrante de sua Comissão de Assuntos Exteriores, apelou repetidamente a Kaja Kallas para que proteja comunidades cristãs ameaçadas no Oriente Médio e na África.
“Por todo o Oriente Médio e a África, onde quer que eu tenha estado como deputado do Parlamento Europeu, vejo massacres, perseguição e ameaças contra comunidades cristãs e outras”, disse ele. Farantouris pede “sanções econômicas, embargo de armas e equipamentos e a suspensão de toda a ajuda ao desenvolvimento a países que não adotem medidas adequadas para proteger as comunidades cristãs”.
Bruxelas destinou € 620 milhões (US$ 690 milhões) à Síria para 2026-2027. Dentro desse pacote, € 280 milhões cobrem estabilização, instituições e recuperação, enquanto € 210 milhões financiam a ajuda humanitária para 2026. A alavancagem financeira oferece, portanto, um meio substancial de garantir o cumprimento das exigências por parte da Síria.
A União Europeia precisa fixar prazos para investigações e processos judiciais, bem como para a proteção de igrejas. Deve exigir proteção igual para todos os cristãos em seus países de origem, não apenas na lei, mas também na realidade. Precisa impor sanções específicas a autoridades que façam vista grossa e suspender a ajuda ao desenvolvimento e à construção institucional quando os governos não cumprirem o combinado. Ao mesmo tempo, deve manter a ajuda humanitária independente. A Grécia pode liderar essa iniciativa por meio de suas relações com os Patriarcados e com a Jordânia.
Um mecanismo europeu de alerta precoce pode reunir relatos de abusos, financiar infraestrutura segura e publicar avaliações de cumprimento. As delegações da União Europeia precisam visitar paróquias ameaçadas e verificar no terreno se os governos cumprem suas promessas, com cronogramas claros e atualizações públicas sobre os avanços.
O passado jihadista de al-Sharaa e seus vínculos com o regime de Erdogan exigem escrutínio sobre seus atos. A Europa precisa insistir em eleições livres, pluralismo e garantias de direitos. A legitimidade do poder na Síria diz respeito também à segurança de seus vizinhos. As famílias de Karak, e todos os cristãos do Oriente Médio, precisam de segurança para permanecer em sua terra natal. “Vidas cristãs importam” deveria se tornar um grito de união global. A comunidade internacional precisa encarar sua compaixão seletiva. Não pode derramar lágrimas de crocodilo por Gaza enquanto ignora o destino dos cristãos e de outras comunidades ameaçadas na região, entre elas curdos, drusos e alauitas. Atenas e Bruxelas precisam fazer da proteção igualitária uma condição de seu financiamento e de suas parcerias diplomáticas — e impor um custo real a quem persegue essas comunidades.
Receba as análises do Middle East Forum por e-mail: assine a newsletter (em inglês)