Conflito no norte da Etiópia não começa nem termina na Etiópia
O ambiente de segurança do país é cada vez mais definido por arranjos nos quais a Etiópia não é a participante central
Blen Mamo Diriba é analista etíope de direito e políticas públicas e diretora-executiva do Horn Review, plataforma independente de pesquisa e publicação dedicada à política, à diplomacia e à segurança no Chifre da África, no Mar Vermelho e na região do Golfo de Áden. Ela também é pesquisadora associada do Institute of Foreign Affairs, da Etiópia.

Analistas americanos não devem interpretar os combates no norte da Etiópia como apenas o mais recente capítulo dos conflitos internos anteriores do país. As vulnerabilidades políticas e étnicas da Etiópia são reais, mas agora constituem a abertura pela qual atores externos buscam seus próprios interesses estratégicos. Egito, Eritreia e setores do establishment militar do Sudão têm interesses convergentes em restringir a Etiópia, enquanto a Somália passou a fazer parte dessa geometria diplomática.
A inserção do Cairo em arranjos trilaterais e quadrilaterais que envolvem a Eritreia, o comandante das Forças Armadas sudanesas, Abdel Fattah al-Burhan, e o presidente somali, Hassan Sheikh Mohamud, é significativa. O presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, o presidente eritreu, Isaias Afwerki, Burhan e Mohamud se reuniram repetidas vezes no Cairo para discutir o Nilo, o mar Vermelho e “assuntos regionais de interesse mútuo”. A relevância está menos na fórmula do que no padrão recorrente: o ambiente de segurança da Etiópia é cada vez mais discutido e moldado por arranjos nos quais a própria Etiópia não é a participante central.
O Sudão oferece uma dimensão operacional importante. O establishment das Forças Armadas sudanesas acolheu, armou e treinou grandes contingentes de combatentes da Frente Popular de Libertação do Tigré, conhecidos como Exército 70 — alguns dos quais lutaram ao lado das Forças Armadas sudanesas contra as Forças de Apoio Rápido na guerra civil em curso no Sudão. O Sudão também teria sediado reuniões que reuniram figuras da oposição etíope e representantes de facções armadas, com a presença de elementos egípcios e eritreus.
Esses desdobramentos sugerem que o território sudanês está funcionando como profundidade estratégica para atores que buscam pressionar a Etiópia. As ações do Cairo reforçam essa interpretação. O Egito declarou que tomará medidas para impedir que a Etiópia use a Grande Barragem do Renascimento Etíope e o Nilo, enquanto seu ministro das Relações Exteriores afirmou que a Etiópia não veria o mar Vermelho “até o Dia do Juízo Final”. Essas posições conectam a disputa pelo Nilo às ambições marítimas da Etiópia e ao seu papel regional mais amplo. O engajamento do Egito com a Eritreia e o Sudão, consequentemente, integra seu esforço de longa data para cercar e restringir as opções estratégicas da Etiópia.
A Eritreia é o componente militar mais imediato. Autoridades etíopes levantaram o tema repetidas vezes em Washington. Em fevereiro de 2026, o ministro das Relações Exteriores, Gedion Timothewos, acusou a Eritreia de agressão militar, ocupação de território etíope e apoio a grupos armados que operam dentro da Etiópia e pediu a retirada das forças eritreias. Gedion também tratou do tema da agressão eritreia em seu contato posterior com o secretário de Estado Marco Rubio, inclusive durante as conversas estratégicas de maio de 2026. Adis Abeba vinha alertando Washington sobre o problema antes que a atual escalada se tornasse impossível de ignorar.
Os relatos atuais do campo de batalha oferecem contexto adicional. A Eritreia deslocou brigadas compostas por unidades da frente Assab-Bure em direção à Zona Norte do mar Vermelho, particularmente Berahle e Dalul. As formações relatadas incluem elementos das 44ª, 67ª e 38ª divisões. O coronel Teshome, comandante de unidades de milícia associadas à 44ª Divisão; o coronel Osman Sabe, chefe de inteligência da 67ª Divisão; e Yasin Hussein, oficial de um batalhão da Inteligência de Defesa, teriam coordenado as movimentações.
O quadro militar está mudando rapidamente. Com a tomada de Mekelle pelas Forças Federais etíopes, as forças eritreias avançaram pelo eixo Assab-Bure em direção a Berahle, Dalul e mais para o interior do norte do Tigré. Os combates se expandiram ainda mais ao norte, e a Frente Popular de Libertação do Tigré e as forças eritreias tentam aliviar a pressão sobre posições em torno de Adwa, Adigrat, Aksum e Shiraro. Os avanços militares da Etiópia mais ao norte e a leste vêm colapsando progressivamente a zona-tampão que o regime eritreu criou nos últimos dois anos entre si e as forças armadas etíopes. O risco é que aquilo que até agora foi um confronto indireto se torne em breve um confronto direto, com forças etíopes e eritreias frente a frente num campo de batalha cada vez mais comprimido. E esse campo de batalha talvez já não possa ficar contido dentro do território etíope.
Para Washington, a conclusão estratégica deveria ser direta. As fraturas internas da Etiópia não devem ser confundidas com a exploração externa dessas fraturas. O conflito com a Frente Popular de Libertação do Tigré, o envolvimento militar sudanês, os deslocamentos eritreus, a subversão egípcia e a crescente arquitetura diplomática e de segurança entre Cairo, Asmara e Cartum estão interligados. O risco para a política externa é que Washington trate cada componente separadamente — a Frente Popular de Libertação do Tigré como um problema político etíope, a Eritreia como uma disputa bilateral, o Egito como uma questão do Nilo e o Sudão como uma guerra civil. Juntos, porém, eles formam um ambiente de pressão regional em torno da Etiópia.
Reconhecer essa distinção não exige que Washington endosse toda política etíope; exige, antes, reconhecer a Etiópia como um Estado soberano cujas vulnerabilidades internas atores externos exploram para buscar seus próprios interesses estratégicos. Essa é a história de maior consequência que se desenrola no norte da Etiópia, e que pode reconfigurar o Chifre da África caso se espere que a guerra entregue aquilo que a diplomacia não conseguiu.
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