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O Ocidente não pode delegar a clérigos a definição do que é o islã

Formuladores de políticas ocidentais não devem ignorar a dimensão religiosa, mas tampouco reduzir os movimentos extremistas apenas à religião

Davood Moradian é diretor do Afghan Institute for Strategic Studies.

An Islamic cleric in traditional dress walking in the courtyard of Fatima Masumeh Shrine in Qom, Iran, in 2019.
Clérigo islâmico caminha no pátio do santuário de Fátima Masuma, em Qom, no Irã. · Shutterstock

A decisão da Igreja da Inglaterra de homenagear um clérigo paquistanês por sua contribuição ao diálogo inter-religioso — e a posterior retirada do prêmio, depois que vieram à tona provas de que ele havia elogiado o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden — foi mais do que uma constrangedora falha de apuração. O episódio expôs um equívoco ocidental: a suposição de que autoridade religiosa é sinônimo de legitimidade social e de representação autêntica dos muçulmanos.

Durante décadas, governos ocidentais abordaram as sociedades islâmicas a partir de uma divisão binária estreita entre “extremistas” e “moderados”: ambas as categorias são religiosas. O extremista é o muçulmano cuja interpretação do islã é perigosa; o moderado é o muçulmano cuja interpretação é aceitável. Nos dois casos, a fé se torna a lente pela qual o Ocidente compreende a identidade política, a motivação cívica e as dinâmicas sociais.

Trata-se de um grave erro de análise. As sociedades de maioria muçulmana não são monólitos religiosos. Nelas há islamistas, tradicionalistas, reformistas, secularistas, ateus, agnósticos, nacionalistas, liberais, socialistas, monarquistas, democratas e setores autoritários. Também há muçulmanos que veem sua fé como assunto privado, e não como um programa político. Ao tratar clérigos e organizações religiosas como interlocutores das sociedades muçulmanas, governos ocidentais fortaleceram grupos de base religiosa diretamente às custas dos demais.

As raízes desse problema são históricas e geopolíticas. Durante a Guerra Fria, a religião se tornou uma arma útil contra o “comunismo sem Deus”. O Afeganistão foi o exemplo mais marcante. Os Estados Unidos e seus aliados apoiaram as forças mujahidin afegãs que combatiam a ocupação soviética, ajudando a criar uma infraestrutura de mobilização islamista cujas consequências se estenderam para além da Guerra Fria. A lógica estratégica era compreensível; os custos de longo prazo, não. Os Estados Unidos trataram a religião como instrumento de geopolítica, e não como uma dimensão de sociedades complexas.

Esse hábito sobrevive na diplomacia contemporânea. Os Acordos de Abraão são, no fundo, acordos sobre interesses de Estado, segurança, soberania e cooperação econômica. Ainda assim, boa parte de sua apresentação pública foi envolta na linguagem da reconciliação “abraâmica” e da harmonia inter-religiosa. A descrição que o Departamento de Estado dos EUA faz dos Acordos de Abraão ilustra esse enquadramento teológico. Tal linguagem não é condenável, mas, quando a religião se torna o vocabulário da ação de Estado no Oriente Médio, identidades políticas, cívicas e econômicas desaparecem por trás de rótulos religiosos essencialistas.

As consequências são mais preocupantes onde a política ocidental ajudou a construir novas ordens políticas. O Afeganistão pós-2001 tornou-se uma “República Islâmica”, enquanto a Constituição iraquiana pós-Saddam declarou o islã religião oficial e fonte fundamental da legislação. O arcabouço constitucional afegão e a Constituição do Iraque mostram como a jurisprudência religiosa se incrusta na governança do Estado. Formuladores de políticas no Ocidente relutaram em contestar esses arranjos, temendo acusações de serem contrários ao islã. O resultado foi um paradoxo: ao tentar demonstrar respeito pelo islã, governos ocidentais legitimaram estruturas políticas que restringiam o pluralismo que diziam apoiar.

O mesmo problema aparece dentro das sociedades ocidentais. A integração dos muçulmanos é discutida, com frequência excessiva, pela via da acomodação da identidade religiosa — escolas confessionais, oferta de alimentos halal ou conselhos de sharia —, e não pela via da cidadania, da igualdade e da participação em uma comunidade política comum. A experiência britânica com os conselhos de sharia ilustra essa tensão. Embora a arbitragem religiosa voluntária possa existir dentro de um sistema jurídico livre, a autoridade religiosa não pode se sobrepor aos direitos universais garantidos pelo Estado, como ressalta a posição do Reino Unido sobre os conselhos de sharia.

A consequência é a marginalização sistemática dos muçulmanos que não se encaixam no modelo religioso preferido: reformadores, secularistas, ateus, ex-muçulmanos, dissidentes, feministas e críticos do islamismo político. Londres e outras capitais ocidentais tratam suas vozes como menos representativas porque elas questionam a suposição de que o islã deva ocupar uma posição privilegiada na vida pública.

Não se trata de um problema meramente intelectual. Ele enfraquece o combate ao extremismo islamista. Movimentos extremistas não devem ser reduzidos apenas à religião; a violência política emerge da interação entre ideologia, teologia, queixas políticas, autoritarismo e condições sociais. Mas a dimensão religiosa tampouco deve ser higienizada ou ignorada. Uma política que tem medo de examinar ideias religiosas não é capaz de enfrentar movimentos que usam essas ideias para legitimar a violência política.

A resposta não é menos liberdade religiosa. É liberdade religiosa igual. Os muçulmanos devem ser livres para praticar sua fé sem coerção. Mas devem desfrutar de igual liberdade para reinterpretar o islã, rejeitá-lo, satirizá-lo, abandoná-lo ou considerá-lo um assunto privado. Os não muçulmanos devem desfrutar das mesmas liberdades. A crença religiosa merece proteção contra a coerção; ideias religiosas não merecem imunidade à crítica. A política ocidental deveria abandonar a busca por “muçulmanos moderados” e, em vez disso, cultivar sociedades pluralistas nas quais os cidadãos determinem livremente, por si mesmos, que papel a religião deve ter em suas vidas.

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