Secretário-geral turco na ONU serviria aos interesses americanos?
Washington deveria avaliar as ideias de reforma de Feridun Sinirlioglu e sua maneira de conduzir as decisões do Conselho de Segurança
Nicoletta Kouroushi é cientista política e jornalista radicada no Chipre. Seu trabalho já foi publicado em veículos como o jornal Phileleftheros, a Modern Diplomacy e a Geostrategic Forecasting Corporation. Ela tem um MSc em Estudos Internacionais e Europeus pela Universidade do Pireu.

A possibilidade de um diplomata turco vir a ser o próximo secretário-geral das Nações Unidas surge num momento desafiador para a diplomacia americana no Mediterrâneo Oriental. Washington aprofundou suas parcerias de segurança com Grécia e Chipre, enquanto a Turquia segue com relações tensas com os dois países. Tropas turcas permanecem no norte do Chipre, e as divergências de Ancara com Atenas sobre fronteiras marítimas e o status das ilhas do Egeu persistem. Nesse cenário, o que Washington teria a ganhar ao apoiar o ex-ministro das Relações Exteriores turco Feridun Sinirlioğlu para o posto máximo da ONU?
Embora Sinirlioğlu não tenha entrado oficialmente na disputa para suceder António Guterres, relatos indicam que Ancara sondou membros permanentes do Conselho de Segurança sobre suas chances. A França manifestou reservas em relação a um candidato turco. O Ministério das Relações Exteriores da Turquia disse ao PassBlue, em 12 de outubro de 2026, que avalia sua candidatura, mas ainda não tomou uma decisão final.
Sua trajetória merece atenção. Ele foi embaixador da Turquia em Israel de 2002 a 2007 e ministro das Relações Exteriores em 2015. Representou a Turquia na ONU entre 2016 e 2023, antes de ser nomeado secretário-geral da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) em dezembro de 2024. Chama a atenção o fato de a Grécia ter apoiado sua nomeação, apesar das disputas em curso com a Turquia.
O histórico de Sinirlioğlu em relação ao Chipre é relevante. Em maio de 2022, ele escreveu a Guterres afirmando que o Estado de parceria formado em 1960 havia terminado em 1963. Defendeu o apelo de Ancara por igualdade soberana e reconhecimento internacional para os cipriotas turcos, posição rejeitada pela República de Chipre. Em 2017, ele também transmitiu a alegação da Turquia de que uma parte da zona econômica exclusiva do Chipre (Bloco 6) se sobrepõe à plataforma continental turca, afirmação que Nicósia igualmente rejeita.
Sinirlioğlu apresentou esses argumentos como representante da Turquia, de modo que eles não refletem automaticamente como ele poderia agir como secretário-geral. Ainda assim, seu histórico pode tornar mais difícil para a ONU reconstruir a confiança entre as duas partes. O secretário-geral nomeia enviados, supervisiona negociações e presta contas ao Conselho de Segurança. No Chipre, onde anos de mediação da ONU não produziram uma solução, a confiança no cargo é crucial.
O presidente cipriota, Nikos Christodoulides, reagiu contra a ideia de um candidato turco. Em 2 de outubro, ao comentar relatos sobre Sinirlioğlu, ele sustentou que as ações da Turquia não correspondem às responsabilidades do cargo e acusou Ancara de violar a Carta da ONU. Sua crítica se concentrou nas políticas da Turquia, não na experiência pessoal de Sinirlioğlu. Em 13 de outubro, Christodoulides também ressaltou que quem se tornar secretário-geral estará vinculado às resoluções do Conselho de Segurança sobre Chipre.
Essa distinção é importante porque o Conselho há muito apoia uma federação bizonal e bicomunal, enquanto a Turquia defende uma solução de dois Estados. Sinirlioğlu se veria mediando um processo no qual sua defesa anterior das posições de Ancara entra em choque com o arcabouço consolidado pelo Conselho.
A relação da Turquia com Washington é outro ponto de atrito. Apesar de os dois países serem aliados na Otan, houve tensões em torno da compra, por Ancara, do sistema de mísseis russo S-400 e da política americana na Síria. O envolvimento militar do país na Líbia, suas reivindicações marítimas no Mediterrâneo Oriental e suas relações tensas com Israel também complicaram a diplomacia americana.
A Síria é um exemplo claro de onde os interesses colidem. Os Estados Unidos se associaram a forças lideradas por curdos contra o Estado Islâmico, enquanto a Turquia considera a principal milícia curda um grupo terrorista. A Turquia interveio militarmente na Síria e apoiou grupos de oposição. A ONU, por sua vez, concentrou-se em negociações políticas e ajuda humanitária. Como secretário-geral, Sinirlioğlu teria de trabalhar com governos cujos interesses se opõem aos de Ancara, ao mesmo tempo em que teria de assegurar a todos sua independência.
Segundo relatos, o governo Trump priorizou a reforma da ONU na busca pelo sucessor de Guterres. Washington deveria considerar as ideias de reforma de Sinirlioğlu, assim como sua abordagem em relação às decisões do Conselho de Segurança. Mas, embora suas credenciais diplomáticas sejam impressionantes, a experiência por si só não prevê como ele lidaria com disputas envolvendo seu governo anterior.
Para Washington, os riscos de apoiar Sinirlioğlu parecem superar os benefícios potenciais. Sua nomeação não resolveria as disputas entre a Turquia e os parceiros dos EUA, e não há sinal de que melhoraria as relações entre EUA e Turquia. Ao contrário, poderia dificultar a mediação da ONU no Chipre e aumentar as tensões com governos importantes para a segurança americana.
Embora o presidente Donald Trump com frequência ceda ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ele o faz por acreditar na promessa de Erdogan de que a Turquia pode cumprir um papel de segurança que permita aos Estados Unidos se retirarem da região. Apoiar Sinirlioğlu, porém, não cumpriria essa função. Sem uma vantagem estratégica robusta, é difícil ver por que Washington apoiaria sua candidatura.
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